domingo, novembro 13, 2016

Cenas do cotidiano I

Cenas do cotidiano I


    Ser humano. Já tão anestesiado pelas porcarias que dominam sua vida, não se interessam mais nem por seus iguais. Moradores de rua suplicam por uma mísera esmola, passa fome, frio, medo. Ignoramos tudo, porque nos é preferível colocar fones de ouvido e fingir que não existe. É mais fácil do que ajudar um igual. Um ser vivo que sente, pensa, age. Existe. Ignorado.
    Tudo inicia num domingo, enevoado e um pouco frio. Nossos planos para ir à praia foram frustrados, em decorrer da água fria. Em vez disso, para nos aquecer, fomos nos aparelhos da academia ao ar livre, perto do trapiche, na Beira-Mar Norte. Depois de certo tempo, já com dor de cabeça (eu costumo ficar de ponta cabeça em todos os aparelhos, então era normal uma dorzinha), sentei-me numa mesa de pedra para tomar água e logo papai se juntou a mim. Foi ai que o vimos.
    A ave estava nadando em nossa direção, um tanto desengonçada. Suas remadas eram mínimas e fracas, como se não tivesse mais forças e que sua vida dependesse disso. E, depois, eu não duvidaria desta informação. Cansada, conseguiu impulsionar-se para fora d’água com uma batida de asas, que custou muito do seu esforço. Aprumou-se numa pedra e ficou por ai, tremendo e recuperando suas forças.
    Fiquei cuidando, pelo olhar, o que aquele lindo ser faria. Logo voaria? Morreria? Nadaria? Logo, falei para mamãe que se apressou em dar uma espiada. Ela ficou preocupada, pois o bichinho poderia estar sofrendo de uma hipotermia. Como não havíamos pegado nosso celular, pedimos um emprestado de uma senhora que também se exercitava no local. Explicamos a situação e ela cedeu seu aparelho telefônico para uma ligação. Mamãe telefonou para o 190, que a mandou ligar para tal número, que pediu que ela ligasse para número tal e assim por diante.
    Depois de uma hora (pareceu-me uma eternidade, já que me recusava a desgrudar os olhos do pássaro) mamãe estava prestes a esgoelar alguém, tal era seu nervosismo. A ave (coitada!) já havia feito inúmeras tentativas de se aquecer e voar, porém, nenhuma resultava em nada. Tremendo, ela abria e fechava as asas, desesperada. Mais desesperada quando se debateu contra as pedras, tentando numa inútil tentativa, voar.
   Surpreendo-me ao ver a delicadeza das pessoas de hoje em dia. Vendo o estado da pobre ave, preocuparam-se em apenas achar o melhor ângulo para uma foto. Ouvi até uns dizendo que isso era normal (experimente bater a cabeça contra uma pedra: depois me diga se aquilo é normal) e que o pássaro estava apenas esperando os peixes (odiei ouvir aquilo: que tipo de ave treme de frio e se bate contra as pedras para alimentar-se?).
    Apareceu, depois de mais um tempo, um fotógrafo apreciando a paisagem. Naturalmente, papai foi conversar com ele. Infelizmente, fotografar não era profissão para o homem, e sim, hobby. Talvez a polícia ambiental e outras dessem mais valor ao animal se a imprensa estivesse vendo. Do mesmo jeito, o homem tirou fotos do animal e mandou para o e-mail da mamãe, que ligou mais uma vez para a polícia ambiental etc.
   Finalmente, apareceu o primeiro guarda. Decepcionamo-nos ao saber que ele estava fazendo apenas a ronda do dia no trapiche, mas concordou em reforçar aviso sobre o pobre animal. De pouquinho em pouquinho, a ave recuperava suas forças, embora ainda tremesse incansavelmente. Estava mais ousada, batia as asas com mais força e estava mais atenta ao ambiente.
   Ainda não entendo porque, para todos os números que fizemos uma ligação, jogaram o problema para cima, como uma batata quente estragada que ninguém quer e passa para o outro. Uma vida, passando de mãos em mãos, chamada por chamada telefônica. Se dependesse deles e a ave estivesse prestes a morrer, morreria mesmo.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Espere que seu comentário seja moderado para poder vê-lo postado.
Obrigada por compartilhar sua opinião!